Na estrebaria
Peor ainda quando cavallos aguados ensaiam o trote da eloquencia ou o galope do lyrismo. Suas graças velhas, seu purismo elegante, seus exemplos de bello estylo proprio para academias provincianas, um falso calor embutido por uma meliflua dignidade desenvoraja os mais arrojados. Quando o auctor não mergulha nos mysterios asperos da escolastica, cae no orvalho oratorio da homilia.
Os outros, os doutos que escrevem para seus pares, hipócritas, conseguem ainda menos levar as almas que não sabem ser christãs. Primeiramente porque não é este o seu fim, quasi todos elles precisariam ser reconduzidos ao Christo; depois o seu pretenso methodo historico, critico scientifico, como elles dizem, os leva a agarrarem-se aos factos exteriores antes para determinal-os e destruil-os que para acha nelles um sentido, um valor, uma luz.
Jesus nasceu n'uma estrebaria. Onde as ervas e as flores, seccas mas perfumadas ainda, jazem na mangedoura para a fome dos animais escravos que lentamente ahi mergulham os groços beiços negros e transformam em humido estrume o campo florescido. Este é o verdadeiro estabulo onde Jesus nasceu. O lugar mais immundo foi a primeira morada... O filho do homem, que devia ser devorado pelos animaes que se chamam homens, teve por prmeiro berço a mangedoura, onde os animaes ruminam as maravilhosas flores da primavera.
Isto não se deu por acaso: não é a terra um estábulo immenso, onde o homem mastiga e digere? Por ventura uma infernal alchimia não transforma em estrume as cousas mais bellas, mais puras, mais divinas? Monturo onde a gente se revolve: a isto os homens chamam "gozar a vida". Em semelhante mundo, morada precaria cujos ornamentos mal disfarçam a podridão... Jesus nasceu.
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